O lugar de Mateus Lucena

O lugar de Mateus Lucena

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Não é difícil de avistar A Pilastra entre oficinas mecânicas e lojas de acessórios e peças automotivas da QE 40. A bandeira com as cores do arco-íris está a tremular no alto da varanda da sobreloja do conjunto D.

“Funciona como um aviso e como um farol”, explica Mateus Lucena, o coordenador d’A Pilastra, no aguardo dos visitantes que forem trazidos pelas vans da segunda edição do projeto BSB Plano das Artes, nos dias 30 e 31 de maio, 1 e 2 de junho.

“Esta bandeira mostra que nós não nos escondemos, não nos camuflamos, não nos dissipamos. Ela está aqui desde novembro de 2017. Não teve um único dia em que não esteve pendurada. Não apenas como estandarte do que representa, também como a marcação de um território.”

Depois que A Pilastra pendurou sua bandeira na varanda, ele conta, surgiram outras na rua. Aqui e ali, aparecendo e desaparecendo, como luzes piscando, como pirilampos. Porque aqui, no Setor de Oficinas do Guará II, os moradores das sobrelojas se mudam bastante, parecem estar sempre de passagem. Quando acontece de uma bandeira ser guardada, outra surge mais adiante, em outra janela, outra varanda.

Mateus já sabe que não está mais sozinho.

A Pilastra foi aberta em outubro de 2017 sem que Mateus Lucena soubesse exatamente o que fazer com aquele espaço. Foi uma coincidência que o levou a este imóvel. E foi uma série de intuições e descobertas coletivas que fizeram d’A Pilastra o que ela se tornou.

Mateus já tinha se desencantado com o curso de Relações Internacionais do UniCeub, já tentara a sorte como fotógrafo de moda na Índia e já circulara por Portugal atrás de suas origens familiares (em vão). Foi nessa encruzilhada pessoal que uma amiga de infância, a artista Rosa Luz, lhe apontou a ideia de fazer um curso relativamente recente na Universidade de Brasília, a graduação em Teoria, Crítica e História da Arte.

Certa noite, Mateus saiu de Taguatinga para visitar uma outra amiga, que morava no Guará. Eles viram o filme DMT: The spirit molecule (2010) na Netflix, documentário sobre o princípio ativo da ayahuasca. O filme nem causou maior impressão. A visita valeu muito mais pela conversa que eles tiveram sobre aquele apartamento onde a menina morava com a mãe, muito grande para as duas, e que nem estava ainda pronto, na verdade era uma construção interrompida na metade, um dos quartos permanecendo sempre fechado, interditado, servindo de depósito para a proprietária que morava no andar acima.

Mateus não conseguiu dormir. Projetava naquela sobreloja do Guará os ares de um loft nova-iorquino. Organizou no Pinterest as primeiras ideias de móveis e de decoração para aquele espaço. Um dos quartos bem poderia servir como estúdio fotográfico. E a sala poderia ser mais do que apenas uma sala. Ao clarear o dia, ele já tinha anotado no moleskine os próximos passos: convencer a amiga a se mudar dali, conseguir outro apartamento para ela e para mãe, ajudar na mudança, procurar a dona do tal loft e se oferecer para alugá-lo, transformar aquela sala em um espaço para performances e exposições de arte.

Rememorando seus primeiros planos, folheando o antigo caderninho, Mateus percebe o risco de passar uma impressão errada. Pode parecer que veio tudo dele. No entanto, esta não é casa de um único dono. “Esta é uma construção coletiva”, explica. “Toda vez que você vem aqui, A Pilastra está de um jeito diferente. A sala onde hoje tenho minha mesa de trabalho antes era espaço expositivo. No quarto ao lado, havia um estúdio de tatuagem. Porque este lugar tem uma força coletiva absurda. Sou o coordenador, mas não diria nunca que faço A Pilastra sozinho.”

Mateus lembra o exato momento em que se deu conta da real natureza do que estava bolando. Foi às vésperas da abertura. A fachada inteira do apartamento tinha sido reformada, a parede externa fora derrubada e portas-janelas foram instaladas para encher a sala de luz natural. Os pedreiros, no entanto, se recusaram a descer com os entulhos pela estreita escada. Deixaram tudo lá mesmo, no meio da sala. Foram os amigos de Mateus que se juntaram para, eles próprios, levarem nos braços os escombros da antiga parede. Encheram um contâiner inteiro ali na calçada. Balde por balde. “Ninguém me cobrou um centavo. Fizeram aquilo porque acreditaram que valia a pena ajudar.”

Os artistas que hoje procuram A Pilastra têm o mesmo espírito dos amigos que encheram baldes e baldes de entulho. “Quem vem expor acredita neste espaço. “Nunca pagamos um artista, nunca pagamos um curador. Não temos recursos para isso.”

Muita gente chega aqui por não se encontrar nos outros espaços de Brasília, acredita Mateus. “Há um fato de que me orgulho muito: esta é a única galeria da cidade frequentada por travestis. Elas são donas deste lugar, elas são donas desta casa.”

“Tem muito homem no rolê da arte. Porém, eu, Mateus, conheço mais mulheres do que homens produzindo esteticamente. Como pode? Cadê elas? Então este espaço é delas: das mulheres cis, das travestis, das transexuais. A gente é muito específico com quem a gente trabalha. Se você me vier com artista do Plano Piloto, homem, branco, hétero, cis, ele não precisa da gente e a gente não precisa dele. Este espaço não é para ele. Ponto. Nosso foco de trabalho são os corpos dissidentes.”

Eis as duas pilastras que sustentam A Pilastra: LGBT e periferia.

Mateus também se orgulha muito da participação na primeira edição do BSB Plano das Artes, em março de 2018. Um total de quarenta artistas passaram pela casa em três dias de programação especial. Gente como Bia Leite, Kabe Rodríguez, Ricardo Gauthama, Javier Biophillick, Pamela Anderson, Leona Raio Laser. E o Culto das Malditas, um grupo de performers e cantoras travestis, produziu um “inferninho” para aquelas noites.

Em pouco mais de um ano, desde o último BSB Plano das Artes, A Pilastra vem desenvolvendo uma série de parcerias. Uma feirinha de arte foi montada com o Projeto Fuga, de Valéria Pena-Costa, no ateliê da artista, no Lago Sul. Mateus também foi procurado pelo curador Carlos Silva para participar da Galeria Casa, no shopping CasaPark. E outro curador independente, Marco Antônio Vieira, levou para A Pilastra uma mostra individual da artista Capra Maia em março.

O respeito dos vizinhos também foi conquistado. Mateus conta que, no começo, o movimento chamou a atenção. “Perguntavam se era albergue, se era casa de festas, se era puteiro, porque vinha para cá uma gente diferentona.” Aos curiosos, Mateus respondia com um sorriso e o convite para que subissem a escada e fossem pessoalmente conhecer A Pilastra. Alguns foram mesmo. E as crianças da rua já aprenderam o caminho – recebem lápis de cor e canetinha como boas-vindas.

Falta agora chegar à rua de cima, onde uma cordilheira de edifícios rasgou uma das margens da Avenida Contorno. Prédios com vinte andares residenciais, porteiros eletrônicos, amplas garagens. A rua de baixo, nos fundos desses espigões, já sofreu a influência dos condomínios. Há pouco abriu uma padaria gourmet bem diferente – e mais cara – que a padaria que serve às oficinas da QE 40.

Mateus Lucena olha comprido para aqueles lados. Um dos desafios para os espaços independentes da arte brasiliense é justamente formar público. Laura Samily, artista e publicitária formada pelo UniCeub, passou os últimos dias montando um plano de marketing e um fluxo de trabalho para A Pilastra. Ainda há muito a ser feito.

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