O lugar de Ralph Gehre

O lugar de Ralph Gehre

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 A pintura, para Ralph Gehre, é um compromisso diário, uma ética pessoal, um comprometimento de vida. Todo início de tarde, ele se recolhe no cantinho da casa que lhe serve de ateliê e retoma o trabalho do dia anterior. Até que as horas passem, o sol caia e a mudança de luz interfira na exatidão de suas decisões. A aventura e o mistério, após quatro décadas de carreira, seguem constantes. Mas a satisfação, conta o artista, pode surgir de repente, aqui ou ali, ao misturar um amarelo bonito.

 

Quando está a misturar suas cores, Gehre não quer gente por perto, nada de movimentações ao redor, sequer gosta de ouvir música, para não se distrair. Não por outro motivo, sua larga mostra retrospectiva, realizada há três anos no Museu dos Correios, recebeu o título de Recluso.

 

Portanto, se abrirá esta rara oportunidade, daqui pra pouco, quando a rota da segunda edição do projeto BSB Plano das Artes (30 e 31 de maio, 1 e 2 de junho) bater à casa de Ralph Gehre. A ideia é que ele receba pequenos grupos de visitantes a cada vez, converse um bocadinho com eles sobre seu processo criativo e que, dali da 709 Sul, todos partam para a 202 Norte, conhecer a mostra de sua recente produção, a ser aberta na Referência Galeria de Arte no próximo dia 25. 

 

Recente produção – melhor: recentíssima produção. Neste momento, contadas três semanas para a abertura da exposição, Gehre ainda está a arrematar algumas peças a serem apresentadas. Preferia que não precisasse ser assim, preferia ter mais tempo entre terminar uma série de pinturas e apresentá-la. 

 

 

“O tempo é necessário para a produção ficar um pouco mais distante, para que eu veja melhor, entenda melhor”, conta o anfitrião, diligentemente cortando dois pedaços de uma torta de maçã feita por ele mesmo. “Meu trabalho não é a realização de um projeto muito claro, eu o descubro fazendo.”

 

Calhou desta vez ser assim meio corrido por bom motivo: no final do ano passado, recebeu convite para uma mostra individual na galeria paulistana Andrea Rehder. Como a exibição foi marcada para coincidir com a SP-Arte, no início de abril, e ele já tinha esse compromisso com a Referência, casa que o abriga aqui em Brasília há 20 anos, estas têm sido semanas puxadas. 

 

Gehre se viu obrigado a sair de sua voluntária reclusão, permaneceu doze dias em São Paulo e ali conheceu artistas, reencontrou amigos, visitou galerias e museus, sentiu-se muito acolhido. Na hora de voltar para Brasília, então, bateu a dúvida – por que voltar?

 

“Saí de São Paulo sem entender o porquê de estar saindo. Mas voltei porque sou daqui. Este é o meu lugar, já escolhi ficar aqui tem muito tempo. Aqui estão minha vida, meu trabalho, meus compromissos. A oportunidade de ter uma galeria que me representa em São Paulo e poder participar da SP-Arte me deixa numa situação de privilégio. Passo a ter acesso a uma parte do sistema da arte, que de resto é muito capenga e muito fechado. Somos milhares de artistas brasileiros trabalhando no interior do país. Uma cidade que tem um bom museu, uma cadeia articulada para as artes, uma boa escola e uma boa universidade, vai promover o surgimento de novos talentos. Mas isso não é condicionante. O menino e a menina que têm um desejo, um ímpeto, se tornam artistas naturalmente. A questão não é essa. A questão verdadeira é como fazer que eles sigam trabalhando.”

 

 

A dificuldade de se fazer uma determinada pintura está na própria pintura, ilustra Gehre, apontando para os procedimentos de ateliê, os embaraços técnicos comuns ao ofício. Mas uma dificuldade muito maior está na perspectiva.

 

“Por que eu estarei fazendo o meu trabalho daqui a 20 anos? De que maneira? Como será possível? Se há uma resposta, se há um ingrediente fixo nesse processo, é a arte como resistência. Porque é tudo muito adverso, a situação é adversa. Desde que comecei, encontrei muitos artistas que seguem em atividade ainda hoje, mas outros tantos se desiludiram, desistiram. A vida preme e espreme. A pessoa exaure, cansa.”

 

O marco zero para a carreira profissional, considera Ralph Gehre, foi sua primeira mostra individual, realizada na Galeria B da Fundação Cultural do Distrito Federal, prédio onde funciona hoje o Centro Cultural Renato Russo, na 508 Sul. À época do projeto Gentil Reversão, que ele aponta como um ponto de inflexão, em 2001, estava encerrando o primeiro ciclo de 20 anos de carreira. “Foi quando consegui acessar, pela primeira vez, um entendimento do que era e do que poderia ser o meu trabalho.” À beira de completar um segundo ciclo de 20 anos, ele diz agora começar a entender o sentido, a encontrar a essência de seu pensamento. “Então, nos próximos 20 anos, talvez consiga fazer aquilo que realmente penso. E mesmo se não conseguir, preciso ter essa perspectiva de tempo. Eu preciso disso.”

 

 

Temos a história da arte ainda a ser escrita – em Brasília – e se não temos a estrutura dos maiores centros de arte do país, nem o passado secular dessas cidades, temos toda a movimentação artística da nova capital ainda ao alcance da mão. E Ralph Gehre é um elo nessa dinâmica. Conviveu com alguns dos pais fundadores da arte brasiliense, pertence a uma geração que ainda multiplica seus contatos e suas influências na cena atual – e frequentemente se aproxima de artistas mais novos e muito mais novos.

 

Gehre se formou em Arquitetura e Urbanismo na Universidade de Brasília, numa época, meados da década de 1970, em que o curso era moldado pela visão modernista de que o arquiteto é um artista. Assim teve professores como Charles Mayer, Douglas Marques de Sá e Cathleen Sidki. E ainda hoje se recorda de ricos encontros com Athos Bulcão e Rubem Valentim.

 

No projeto Gentil Reversão, que se tornou exposição no Centro Cultural Banco do Brasil naquele 2001, pôde compartilhar de um processo criativo com os companheiros de geração Ana Miguel, Elder Rocha Filho, Gê Orthof, Chico Amaral e Marília Panitz. 

 

E até pelo fato de seu filho, Lucas Gehre, ter se revelado um personagem gregário da geração 2000 da arte brasiliense, em coletivos como a Laje e mais recentemente o Ateliê Nova, Ralph Gehre se vê em contato com toda essa juventude. Espera retribuir para eles a deferência que recebeu, quando iniciante, de colegas como Valentim e Bulcão.

 

 

E agora o já nem tão recluso anfitrião abrirá gentilmente a porta de casa – mais uma vez – quando chegar a van do BSB Plano das Artes. “As pessoas virão aqui, tomarão um café e poderão ver a espantosa situação deste minúsculo ateliê, desta mesinha”, brinca Ralph Gehre, apontando para seu campo de confrontamentos diários.

 

As telas que neste momento ocupam suas tardes já estarão na Referência Galeria de Arte. Para não ficarem vazias, as paredes de seu ateliê – onde deixa cada pintura descansar bem na altura dos seus olhos, até ser retomada. levada de volta à mesa de trabalho, até ser considerada pronta – receberão algumas obras mais antigas, tiradas de armários e gavetas para a ocasião.  

 

“Esta é uma demanda muito pessoal. Desenhar, pintar, ler, escrever. Trabalho todos os dias, assim como faço a minha própria comida. A pintura é muito dura, muito difícil de se contentar. Mas confesso que, no meio do caminho, há pequenas situações de um conforto. Aquela hora em que a pintura me permite encontrar algum componente próprio da natureza dela. Ah, isso é uma pequena alegria.”

 

A pequena alegria de um bonito amarelo.

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